Os cotidianos de Fernando Correia
Os cotidianos de Fernando Correia
Todos têm histórias, todos têm histórias para contar. Entre o passado e o presente pode haver uma idealização do passado, ou seja, uma visão romantizada que apaga as dores e revela os sonhos realizados. Uma pintura é um evento presente, que representa o presente ou passado e é destinado ao futuro. Pode se realizar por anedotas - passagens engraçadas da vida, alegorias - significados não literais que demandam um repertório prévio do artista ou do contexto em que a arte está inserida, ou crônicas - comentários mais profundos sobre a vida cotidiana das pessoas e da sociedade.
Ao contar uma história é possível construir um novo sentido. É possível fazer uma utopia retrospectiva, isto é, filtrar experiências boas de experiências ruins e formar uma transfiguração saudosista.
As histórias de Fernando ora são ficcionais, ora biográficas, sempre cronificando as observações que considera pertinentes de serem filtradas não para expurgar a época conflituosa em que vive, como em Philip Guston, mas ao contrário, para contar às pessoas do presente e do futuro os valores de amizade, fraternidade e afeto que merecem ser lembradas.
Uma vez que “a realidade é definida pela posição que o indivíduo ocupa na escala social”, diz Ricardo Gomes Lima, no capítulo Arte Popular do livro Sobre Arte Brasileira, vemos que Fernando não é um artista popular por não vir de uma camada social empobrecida. Ele vem de uma tradição modernista que usa as imagens para transmitir mensagens intencionais e bem ordenadas, que usam símbolos de riqueza comuns a quase todas as escalas sociais, exceto os miseráveis. E pretende, assim, criar uma mensagem que atravesse todos os níveis sociais com a prefiguração de mensagens de felicidade e gratidão com o que está ao alcance do dia a dia.
Francis Ford Coppola numa entrevista recente (2024) disse: “Basicamente, toda nossa estrutura está lá para vender um pouco de felicidade às pessoas. Acho que talvez as pessoas estejam sendo deliberadamente mantidas infelizes para que sejam melhores consumidores”. A intenção de Fernando é retirar o véu que separa as percepções de felicidade atingida e imaginada, evitando frustrações. Muito já há de conquistas na vida cotidiana como saúde, saúde mental, boa alimentação, bom humor e, sobretudo, a presença do outro. A pessoa humana teve sua atenção extremamente fragmentada com a proliferação de telas. O convívio do outro indivíduo seja cônjuge, parente ou amigo ou mesmo esporadicamente pessoas anônimas, vem a integrar e aglutinar as forças de atenção para as reais forças de existência: o porvir compartilhado.
Ana Aguiar Cotrim nos diz que “o modo de vida é definidor da forma artística que figura”, a propósito de arte popular. Fernando não é popular mas bebe do que é popular. A origem de suas histórias pode-se dizer que são invenções a partir de suas experiências e observações sobre a intimidade, a sociedade e o que é atávico ao dia a dia das pessoas. São razões de ser feliz que marcam e marcaram a trajetória espiritual do artista em agradecer “o pão nosso de cada dia” ao invés de, numa metáfora, fazer estoques de mantimentos para os próximos 3 meses. Assim, busca compartilhar sua visão com o mundo sobre as graças da realidade. Esse despertar a percepção do outro para o que é belo e suficiente é único e caracteriza a arte onde a arte está. Ou seja, dentro das evidências de vida da trajetória das pessoas comuns. Claro que arte pode ser mais além do que isso, mas a isso Fernando atende.
Após a Nova Objetividade, da década de 1970, que trouxe importantes reflexões sobre o lugar do público na formação da arte, com Lígia Clark e Hélio Oiticica com suas obras participativas, a Nova Figuração, na década de 1980s, via a necessidade de trazer de volta as imagens para as artes com a finalidade de discutir as questões nacionais e mundiais.
Assim, Fernando pode usufruir de um caldo perceptivo referencial que une o local e o nacional, o popular e o erudito, a denúncia e o filtro sobre as histórias cotidianas ou mundiais.
Com uso de muitas alegorias, Philip Guston desenhou sua última e mais conhecida fase. Na década de 1960 esse importante pintor estadunidense aderiu ao projeto do Expressionismo Abstrato liderado por Willen De Kooning. Quando repentinamente voltou-se à figuração alegórica. Assim como Guston, que foi inclusive um excelente muralista na década de 1940, Fernando tem movimentos em sua produção tendo visitado primeiro as paisagens de plein air (2003-2010), depois feito uma discussão sobre o neoconcretismo (2011-2019) para, então, dedicar-se aos cotidianos de 2020 em diante. Picasso teve nove fases no percurso de sua vida. Mas Fernando, não. A Pandemia o fez pescar momentos anteriores e ser capaz de se envolver com as três linhas preferenciais de pesquisa simultaneamente. Noves fora esse prodígio, faz-se necessário observar a qualidade da pesquisa que pretende levar adiante por ser capaz, talvez, de trazer um raio de esperança em meio ao Pandemônio brasileiro e mundial antes de um exorcismo como foi visto o trabalho de Guston à sua época. Fernando não exorciza o presente, ele pretende encantar para conduzir as pessoas a uma realização pessoal maior. Sem idealismos para que desmontem o véu da infelicidade que nos mantém consumidores vorazes enquanto o mundo se despedaça entre outras coisas, por meio dos descontroles do clima.
Pela boa técnica associada a um desenho de reduzidas possibilidades descritivas, Fernando une o brio formal num mesmo momento com imagens risíveis infringindo, assim, as tradicionais fronteiras entre a alta e baixa cultura.
Maria Cândido Monteiro, a artesã de Juazeiro do Norte, com suas placas cerâmicas trabalhou como uma agente da memória das artes coletivas de sua terra natal. Tanto de valores cristãos por meio do imaginário católico como de bandas de pífanos, consultas médicas em clínicas, assim como narrativas sobre retirantes. Conhecedor do trabalho de MCM e sem a consciência de ser agente da história, mas com histórias para contar, Fernando fez suas placas de barro ainda em 2005 durante sua pesquisa de Plein Air. Primeiramente representou corujas, cajueiros e jabuticabeiras para depois ingressar naturalmente nas crônicas de sua vida pessoal, no filtro de suas histórias amorosas vividas ou idealizadas. Assim, desde muito antes de 2020 Fernando criou utopias para contar o que imaginou ou peneirou o que viveu.
Sem problematizar a condição humana mas afirmar as soluções práticas que a vida traz, Fernando busca trazer uma mensagem leve, agradável e libertadora apontando que a felicidade já foi conquistada. Basta percebê-la como tal. Essa luta de consciências por consciências e em consciências é um esforço brutal do artista para que a condição humana atual seja preservada e envolta de dignidade, realização e gratidão por tudo aquilo que temos e somos. Se ser feliz fosse uma questão de enquadramento, quem nos abriria as cortinas para o fim das desesperanças sórdidas de um sistema que nos oprime para nos manter conectados a tudo aquilo que ele produz? Ao contrário das idealizações publicitárias, Fernando investiga e reporta aquilo que está minimamente tangível ao nosso campo de percepção da satisfação pessoal. Aceitar a beleza onde ela está e não onde se idealiza vem a ser um verdadeiro esforço de resistência diante das armadilhas que nos programam para só dizer sim. Sem nos dizer como. As obras do cotidiano de Fernando nos diz: já está feito, basta aceitar a vitória da vida!
Comentários
Postar um comentário