Sessão de Nu com Sofia Tamareira
Não me lembro mais a ocasião em que veio a tona, na sala de aula da Faculdade Santa Marcelina, meu questionamento. Havia prevalência de mulheres jovens na sala e eu esperava alguma reflexão. Minha indagação foi qual era o lugar e o papel do nu na arte contemporânea. Silêncio na sala. Hoje veio a resposta, no curso extra-curricular da Joules e Joules "Desenhar com todos os olhos" do Pedro Campanha e Flora Rebollo. Hoje foi aula de nu. Os professores fizeram exercícios de aquecimento, que consistia em tocar o rosto com a mão esquerda e desenhar a parte observada com a mão direita no papel, sem ver a folha. Eles sempre enfatizam a importância do aquecimento. Quem sabe depois disso eu passe a ser um pouco mais ritualístico também? Pois dá resultados, dá efeitos. Mas percebi que o lugar do nu no mundo de hoje está ligado a predileção dos artistas sobre esse tema. Se pararmos de fazer auto-retratos, não haverá espaço para auto-retratos. Simples assim. No fundo gosto da Flora porque ela me disse uma coisa no passado que me fez entender e eu gostei muito... de que são os artistas que ditam as regras.
Ela falou hoje sobre o desenhar como o registro da experiência do ato de desenhar. São coisas que aparecem em meus desenhos que dizem mais respeito a arte que ao corpo nu. Mas sem esse suporte, sem esse tema, nada disso teria acontecido. A tradição nas artes, na verdade, eu acho, quem sou eu para afirmar... mas a tradição vem a ser um mecanismo de resguardar.. de preservar... de manter intacto aquilo que mais indicia sobre a beleza: o corpo nu, a natureza, a geometria. Não que seja uma missão institucional da tradição, não que seja uma bandeira nacionalista. Não. A tradição apenas afirma o que já havia até mesmo antes da tradição. E exercê-la é sim um gesto de inovação. Faz parte da tradição a abertura para o novo. É igual a literatura. Sempre haverá os verbos. Você pode escrever sem verbos mas quando utilizá-los haverá funções muito específicas e iluminadoras. Ou o uso dos tempos verbais. Do repertório vocabular. O desenho também tem suas toadas da tradição. A linha. O perfil. Os vazios e os cheios. Os claros e escuros. O volume. Quem se apropria e embaralha ao próprio sabor esses valores encontrará energias do passado e do presente em si mesmo.
Em 3 horas de aula, acho que nunca trabalhei tanto. Compartilho aqui com vocês 80% dos exercícios de hoje. Tirei 20% para dar unidade de observação.
A modelo, Sofia Tamareira (o sobrenome eu inventei) soube expressar-se muito bem, trouxe desafios gráficos sempre diferentes, soube dos contrastes em si entres as massas corpóreas em relação aos pés, rosto e mãos. Educação, formação é tudo! Espero estar velhinho frequentando os cursos extra-curriculares. Porque sempre abre uma porta nova. E por onde passa um fio de água hoje, passa um rio amanhã ou depois.
Sou autor de todos os desenhos. Técnica: lápis dermatográfico e bastão de óleo sobre papel sulfite.

























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