Amigo das artes

 Declaração de Artista: Fernando Correia


Quando eu era criança, ganhei um estojo de pintura profissional do meu avô pintor. Deixei aquele material de lado. Eu brincava de desmontar e remontar bonecos com as partes dos membros trocados, montava Lego, fazia esculturas de argila, desmontava equipamentos eletrônicos velhos para fazer robôs, congelava quase tudo que tinha em casa. De repente me vi a brincar com aquelas tintas preciosas. Sob o tema do cavalo agonizante de Guernica de Picasso, recém adolescente lancei o desenho numa tela. Preenchi com cores extravagantes e, depois que o quadro secou, lancei uma película de óleo com pigmento cor de ouro simulando fogo saindo pela boca do cavalo. A beleza das cores e o brilho do óleo me encantaram profundamente e por dois anos minha nova brincadeira era explorar técnicas bonitas no Manual do Artista, de Ralph Mayer, além dos ensinamentos técnicos que tive com meu pai e meu avô. Aos poucos fui deixando as brincadeiras de criança de lado e as artes se tornaram minha nova brincadeira.

Minha avó dizia que os livros eram seus amigos. Os meus amigos são as artes. Então sou amigo do Construtivismo, dos Expressionismos Alemão e Francês, da arte Naif. Isso não significa que eu seja igual a eles, mas que eles foram base para minhas conversas. Faço uma arte que reverbera essas amizades. Eu não gostaria de ter apenas um amigo, assim como na vida é impossível ser amigo de todas as pessoas, me dediquei a algumas dessas amizades. Assim, conversar com esses amigos mudou o meu ser e provocou uma reciprocidade que despertou meus instintos plásticos de maneira surpreendente para mim. O que une esses esforços talvez seja a minha raiz na tradição moderna, mas com cada amizade procuro dar presentes e receber orientações diferentes. Assim aconteceu que me manifesto artisticamente de maneiras diversas sob a luz de cada amizade.

Sob a amizade dos Expressionismos Alemão e Francês, busquei primeiro me dedicar à arte do desenho de observação para depois introduzir a cor sob as vestes dessa conquista inicial. Minha intenção era de questionar a necessidade de drogadição que atingiu boa parte de minha geração, mas também de investigar belezas sinestésicas sem ter sinestesia. Fiz isso tudo para registrar o meu estilo de vida e as pessoas que habitam minha vida mas, também e não menos importante, para registrar a natureza da região em que moro. Descobrir e registrar a natureza tropical do Brasil foi uma grande satisfação existencial.

Com o tempo, coloquei essa amizade em perspetiva ao copiar as cores da realidade, como Cézanne, pois percebi que a cor e a profundidade tem caminhos naturais e, assim, meus estudos de perspectiva e emparelhamento com a tradição das pinturas de paisagens de artistas brasileiros se manifestaram.



Sob a amizade do Construtivismo, desenvolvi uma necessidade de jogo de sobreposição de formas simples: quadriláteros, triângulos e listras. Essa é a base de composição de acúmulos, muitas vezes transparentes, que lucram pela complexidade a vitória das formas sobreviventes assim como o rescaldo de base das formas eclipsadas.


Sob a amizade Naif percebi que eu era muito diferente desse amigo. Pois não tenho origem humilde, não tenho desconhecimento total sobre as técnicas e não tenho temáticas de um entorno humilde. Mas percebi o valor do convívio entre pessoas e surgiu em mim uma necessidade de expressar os valores humanos de meu entorno em contraposição à uma cultura de ostentação que leva a frustração adolescentes e jovens por não terem em si desenvolvidas a cultura da gratidão. Eu nunca quis ostentar, mas observava o copo sempre vazio. Foi observando as pessoas gratas a vida que percebi a riqueza que já estava estabelecida em minha existência e que a maior de todas as riquezas é o outro. Então procurei assimilar tanto quanto possível as formalidades estéticas dessa amizade sob a luz das belezas de convívio e vitórias do dia a dia.



Eu não sei se um dia vou me manifestar sem minhas amizades. Se um dia serei apenas eu e os outros num estágio de comunicação direta sem o intermédio de minhas amizades numa nova arte livre dos cânones ou da cultura popular. Livre de máscaras. Sinto que a amizade com as artes foi o caminho a mim apresentado, por uma estrutura de educação colonialista mas que, antes, o respeito ao que é do outro ou ao que é estrangeiro, me salva. Não me vejo saudosista, mas aprendiz de lições eternas para o campo das artes; que é o sedimento da história e dos registros de artes populares não historicizadas. Hoje, a História da Arte se tornou mais dinâmica, inclusiva ou ela mesma História da Arte é inviável. É preciso refletir sobre o papel das alusões, menções, evocações e interpretações. Eu procuro manter as minhas convicções em velocidade de cruzeiro para, quem sabe no futuro, eu estar preparado para mudanças em meu coração. É difícil desperdiçar o passado assim como amizades tão generosas. Acredito que estou fazendo bom uso delas. Muitas vezes eu simplesmente não sei ser melhor e não reconheço autoridades que levem meu senso prático de realizações por investigações mais sinceras. Meu único professor, às vezes, é minha arte. Aprendo com meus acertos e meus erros. E com o tempo. O tempo emana novas verdades daquilo que já foi estabelecido.


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