Entre sobreposições e planejamentos
O caminho de uma composição abstrata se revela gesto a gesto pela adição de formas no plano pictórico. Eu tenho duas estratégias distintas. A primeira é fazer uma camada de trapézios de cima a baixo, a tela toda. E nas camadas seguintes ir adicionando formas geométricas que “atropelam” as camadas inferiores. Outra estratégia é esquadrinhar o tecido cru de linho com pautas e linhas horizontais para criar eixos da onde sairão as diagonais, formando triângulos. Em ambos os casos a intuição vem a ser um componente dinâmico que diz por onde e com quais formas e cores o quadro quer ser conduzido. É quase uma conversa com o invisível. Não raro os primeiros 20% da pintura da tela parecem extremamente insatisfatórios. O que dá vontade de largar a tela. Mas é da resiliência que surge esperança de que algum brilho verdadeiro sairá dessa composição.
Raramente planejo volumes em minhas composições abstratas. É tudo chapado. Acredito que assim o olhar se prenda a uma dimensão única nas possibilidades de representação formal. É o plano bidimensional com formas bidimensionais. Não há sombras ou saliências. Os movimentos de volumes são substituídos por um movimento preso na superfície da tela. A troca de forças entre campos visuais limítrofes ou distantes ocorre de maneira que o olhar tenta se organizar diante da complexidade apresentada.
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